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Será que alguém ainda se preocupa com a verdade?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 15.08.11

Há quem procure o fantástico em cinema, eu procuro o autêntico, o verosímil. Seja de forma realista (aproximada do documentário) ou metafórica (aproximando-se da poesia, da pintura, do teatro). O que importa para mim é a busca da verdade (filosófica ou científica). 

Todas as expressões artísticas são, a meu ver, formas de analisar e reflectir a vida, as pessoas, os afectos, o mundo, o universo. Do mais simples ao mais complexo, do menor para o maior. Um simples dia no percurso de um anónimo pode dar um filme riquíssimo em informações sobre a nossa natureza, as nossas dúvidas, angústias, alegrias, tristezas. A questão está na forma de pegar num tema e desenrolá-lo em linguagem própria do cinema.

 

Ultimamente dei por mim a ver filmes sobre a guerra do Iraque: Jogo Limpo (Fair Game), Jogo de Peões (Lions for Lambs), Combate pela Verdade (Green Zone).

São todos construídos de forma muito aproximada do documentário, o que os torna verosímeis e credíveis. E o que lhes dá mais força e impacto. Transportam-nos para aqueles ambientes caóticos, em que a vida se torna repentinamente frágil, descartável, desamparada. É o ambiente de guerra, a sensação de alerta constante, o medo permanente. Nada é estável, seguro, fiável. Nem as informações por detrás da acção das personagens. 

 

Não consigo deixar de pensar que é este mundo caótico que parece estar a alastrar-se sem controle. A todos os níveis: económico, político, social, tecnológico, mental. Quando não se diz a verdade às pessoas, jogando com as suas vidas, sangue e ossos, com as suas famílias e afectos, o que se pode esperar de quem gere o poder?

  

Jogo Limpo acompanha a construção de uma versão da realidade que possa justificar a invasão do Iraque, apanhando pelo caminho uma agente da CIA e o marido, um embaixador. O filme está construído com ritmo, à volta da família e dos amigos mais próximos, de uma secção dos gabinetes da CIA e nas zonas críticas do globo. Subliminarmente pressentimos uma mensagem pedagógica, pelo exemplo das personagens que persistiram na desmontagem da mentira oficial: vale a pena defender os princípios da democracia, o valor da liberdade e do direito à informação.

 

Jogo de Peões evidencia, de forma mais dramatizada aproximando-se da linguagem do teatro, as diversas faces do poder: o político ambicioso que tem nas mãos a capacidade de jogar com vidas para conseguir protagonismo; a jornalista que, na impossibilidade de desmontar a informação fabricada e dizer a verdade, tem um poder relativo, mas enorme, de não voltar a deixar-se manipular; o professor que ainda pode influenciar a vida e o percurso dos seus alunos, desafiando-os a reflectir, a pensar pela sua própria cabeça, a procurar ver por detrás da informação que lhes é dada, a viver de forma consciente, activa, consequente, e não alienada, conformista, decadente. Finalmente, o poder muito relativo dos jovens decidirem da forma mais saudável e criativa, porque condicionados pelos valores dominantes e pelas suas condições de vida. A pressão do ambiente em que se cresce e vive é enorme, e isto é exacerbado na idade impressionável. Magnífica cena e magnífica line do professor, a jogar a última cartada, questionando o aluno promissor se conseguiria viver sem se preocupar com o que se passa à sua volta. A line segue mais ou menos esta ideia: Não voltarás a ter as capacidades que tens hoje, a mesma inteligência e criatividade. Tudo passa demasiado depressa.

 

Green Zone leva-nos ao cenário da guerra e mantém-nos lá: o soldado, a jornalista, o general, o político. Estão lá todos. E tudo gira à volta da verdade. O ritmo das cenas acelera, sincopadamente e sem tempo para reagir. Percebemos que a vida depende dessa capacidade de reacção, da rapidez, da agilidade. Percebemos que nestes cenários as pessoas são tratadas como ratos de laboratório e já se comportam como tal. No final a mentira fabricada é desmascarada mas sentimos que esta foi apenas uma etapa na loucura geral. Nunca subestimar a inesgotável capacidade humana de consumir ficção. É o que percebo na maioria das pessoas: tolerar que lhes mintam, que as enganem, que as iludam, que as embalem.

 

 

 

 

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publicado às 11:35

Um mundo em que tudo é lixo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 09.11.09

 

War Inc. e um mundo em que tudo é lixo, a vida, as pessoas, a arte. Um mundo em que tudo é superficial, descartável, reciclável. Em que tudo está à venda, em que tudo pode ser traficado. E em que se enriquece facilmente.

Um mundo em guerra permanente, com territórios delimitados por interesses obscuros e dominados por traficantes.

Não há lei nem ordem. Nem qualquer sombra de respeito pela vida. Mata-se porque sim, por dinheiro ou por razão nenhuma.

Um mundo com imenso ruído, a toda a hora, dos tiros, das explosões, da música lixo, da publicidade lixo.Visualmente, é o caos, cidades destruídas mas ainda assim a funcionar, de forma quase esquizofrénica. E no meio das ruínas, néons e anúncios publicitários.

Nunca um filme como este War Inc. me pareceu tão verosímil na antecipação de um futuro mais próximo do que pensamos. Aqui, por enquanto, é o Turquistão. Mas se me perguntarem se é assim que vejo o futuro direi, Com os dados que tenho, baseando-me em tudo o que observo hoje, é este o futuro que nos espera mesmo. Um mundo bem mais caótico do que desejaríamos certamente. Um mundo onde será cada vez mais difícil viver.

 

Voltemos ao filme. Uma das cenas mais incríveis e que condensa a metáfora deste futuro antecipado é a do encontro entre o nosso herói, um operacional da CIA, que está farto de matar por interesses que já se afastaram há muito dos iniciais, minimamente aceitáveis e legítimos, eliminar os vilões, e o seu Chefe, frio e implacável. Este encontro dá-se num Parque Temático, um Circo Romano. O nosso herói, para salvar a própria pele, acabará por enfiar o Chefe num carro do lixo, colocado ali mesmo, no meio do recinto. O Chefe não aceitara bem a sua demissão. Não teve, pois, nenhuma outra alternativa se não enfiá-lo lá dentro e carregar no fatídico botão.

 

Outra cena: a chegada da cantora pop ao hotel, a cantora que personifica, na imagem e no comportamento, os ideais pornográficos do momento, para uma barbárie consumista de fãs que a seguem de forma canina. (De certo modo, também já podemos perfeitamente vislumbrar esta antecipação do futuro na música lixo a encher a rádio a toda a hora, os centros comerciais, as lojas, as ruas. Até a roupa da moda já se aproxima dessa vulgaridade e há muito que o bom senso e o bom gosto se ausentaram dos lugares in).

O nosso herói resistirá à sedução descarada da miúda, pois a cantora não passa de uma miúda assustada, como ele lhe dirá depois, e tentará protegê-la como pode. Acabará por descobrir que ela faz parte do seu passado doloroso (sim, um herói que se preza tem sempre um passado doloroso).

Também resistirá à sua última missão camuflada: eliminar o Omar Sharif, um ministro com este nome incrível. Como troca pela sua vida, o alvo dar-lhe-á uma informação fundamental: o seu ex-Chefe está vivo, sobreviveu à espremidela do carro do lixo e terá sido o responsável pela sua dor maior, a perda da família.

O nosso herói só não resistirá ao encanto da jornalista idealista, sim, ainda haverá espécimens destes a provar que a nossa humanidade não se terá perdido para sempre, até porque são estas personagens que nos irão lembrar isso mesmo, os valores fundamentais, da vida, da liberdade, da justiça. É isso mesmo que dirá ao nosso herói: Estou sempre em minoria, um lugar muito solitário. Mas gosto de estar assim. Também só por milagre alguém tão ingénuo e vulnerável escapará ileso desta aventura, bem, por milagre e com uma ajuda deste homem, que ela vai aprendendo a aceitar.

 

Em War Inc., uma sociedade completamente alienada e consumista, vulgar e superficial, a imagem e a publicidade à escala mundial, a sua utilização temporária e descartável, um tempo fragmentado e de satisfação imediata. Uma sociedade de lixo, visual e sonoro, magnificamente retratada.

Num mundo assim só sobrevive o mais forte, o mais inteligente, o mais engenhoso e o mais sortudo, evidentemente. No caos, o factor sorte tem muita influência.

Bem, vou resistir a contar mais pormenores, pois o filme perdia a piada.

 

Confesso, este War Inc. impressionou-me mesmo. A realização, tecnicamente perfeita. As personagens, complexas e imprevisíveis. Os diálogos, simples e no ritmo certo. A fotografia e a montagem, impecáveis. Os cenários, as fatiotas, tudo bem integrado.

Como observadora dos pormenores e defensora do verosímil, fiquei fascinada pelo filme. Penso até que serve perfeitamente de aviso à navegação. De certo modo, antecipa um futuro que já está aí em certas partes ainda identificáveis. Um mundo caótico, um mundo em que tudo é lixo, a vida, as pessoas, a arte.

 

 

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publicado às 20:17

Encontros casuais no Caminho das Descobertas

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 26.06.09

 

Nos anos 90 programaram-se Ciclos de Cinema na RTP 2, penso que já o disse aqui. E documenta´rios culturais magníficos, sobre realizadores, escritores, pintores, fotógrafos.

É impossível não fazer comparações com a aridez da época actual: abre-se a Rtp2 e já pouca diferença vemos em relação à Rtp1 ou à Rtp Memória. Fala-se de cultura e de arte de forma superficial e pretensiosa, muitas vezes para se promoverem produtos banais, não é o produto genuíno.

As elites culturais não acreditam na capacidade de observação das pessoas em geral. Mas é minha convicção que as pessoas sabem instintivamente quando estão perante uma obra de arte ou quando estão perante um produto banal. Quando o produto é bom, genuíno, as pessoas reagem sempre. As elites culturais é que geralmente torcem o nariz.

É certo que hoje muitos blogues vieram substituir esse lugar cultural na televisão. Mas ainda sinto falta desses programas.

Foi num desses Ciclos de Cinema da Rtp2, dos anos 90, que vi A Canterbury Tale dos ingleses Michael Powell e Emeric Pressburger.

O fascínio foi imediato. Por isso espero conseguir transmitir aqui o que pensei senti, o que encontrei, também eu, nesse Caminho das Descobertas.

A primeira ideia que aqui gostaria de deixar é que se trata de um obra de arte. Do início ao fim. Na imagem, entre o poétido e o documental, a acompanhar personagens caídas ali por acaso, e o campo inglês, as suas aldeias típicas e as planícies onduladas. Na sequência narrativa, na forma como as cenas se entrelaçam, às vezes de uma forma imprevisível, porque a vida também é imprevisível.

E aqui começamos a ver o génio destes realizadores da Archer! Há muitas formas de contar uma história. E de a levar por diante, com personagens e diálogos bem encadeados. Banal.

E há a forma criativa de nos meter numa história, tal como se também nós fôssemos apanhados na história, tal como acontece na vida real. Porque é assim que nos sentimos, muito próximos daquelas três personagens, a tentar perceber o que se passa à medida que vamos avançando com elas. É assim na vida real e será assim neste Caminho das Descobertas.

Por isso é que eu digo: estamos perante uma obra de arte genial.

 

Podem dizer-nos que este filme não resiste ao tempo. Não creio. Aqui vi cenas que poderiam perfeitamente ser filmadas hoje:

A cena dos tanques militares que surgem repentinamente numa ondulação da planície, por entre a vegetação. Saídos do nada!

E outra cena: a rapariga percorre as ruas da cidade bombardeada. Onde antes existiam prédios, agora vemos enormes crateras cheias de destroços. Lembro-a em câmara lenta, mas não sei se foi assim que foi filmada. Ao longe, vê-se a Catedral, pelo menos na imagem que registei de memória.

E ainda outra: todos se encaminham para a Catedral, e tudo filmado como num documentário.

 

Mas voltemos ao início, se é que aqui há um início e um fim, porque também na vida real não há propriamente um início nem um fim, a não ser o das nossas vidas mortais.

A ideia que fica é que este Caminho é afinal o nosso caminho, sem uma lógica propriamente definida, nem planos prévios (e quando os há a vida encarrega-se de os alterar), sem certezas nem GPS que nos valham, apenas a nossa capacidade de o sonhar e de o ir calcorreando, em correrias entusiasmadas (mais no início), em caminhadas mais calculadas (ali pela meia idade) e a apalpar bem o terreno (mais lá para diante).

É assim que se sentem estes peregrinos-sem-o-saber, sim, eles não sabem (nem nós ainda) que são, também eles, peregrinos num Caminho das Descobertas.

 

O campo inglês e um Caminho de Peregrinos. O filme mostra-nos a sua permanência, em duas cenas que se sobrepõem: uma, os peregrinos medievais, que o atravessam, a caminhar. E logo a seguir, no mesmo local praticamente inalterado, os novos peregrinos, soldados em jipes e tanques. O cenário é exactamente o mesmo, só mudam o tempo (alguns séculos depois...) e as personagens.

 

As nossas personagens: uma rapariga londrina que vai trabalhar numa quinta ali perto; um soldado inglês de licença por alguns dias; um soldado americano. Destes, só o americano queria ir a Canterbury, mas sai na estação errada por engano.

E é aqui, nesta noite, que os três se encontram na estação. E que em breve formarão um trio que, embora improvável, unirá esforços para desvendar um mistério: a rapariga dá um grito inesperado, tinham lançado cola no seu cabelo! Várias mulheres já se tinham queixado do mesmo naquela aldeia, sempre que falavam com estrangeiros (ou estranhos). O homem da cola, como misteriosamente lhe chamam, voltara pois a atacar.

Encaminham-se para o magistrado local, onde apresentam queixa, e aqui começam a reparar que há algo de muito estranho naquele homem. Embora sejam tratados com afabilidade, qualquer coisa os deixa desconfiados. Entretanto, lavam a cabeça da rapariga, a cola custa a sair.

Tudo começa nesta aventura. Também para nós, que estamos tão perplexos como eles. Nada percebemos.

Esta simples aventura, que é vivida com uma curiosidade natural, leva-os a conhecer um pouco mais da história daquele local, do significado mais profundo dos seus valores ancestrais.

E, embora estranhamente unidos naquele Caminho, cada um deles irá percorrê-lo solitariamente, na sua busca pessoal e na sua descoberta. E isso é fascinante. Porque também é assim na vida real. Cada um tem o seu sonho, o seu propósito. Pode encontrar-se com outros como ele, mas é um caminho pessoal.

E vamos percebendo o seu desgosto (a rapariga), a sua ansiedade (o americano) e o seu sonho inconfessado (o inglês).

A rapariga: depois da minha cena preferida, a da caminhada na cidade destruída, em perfeita sintonia com a sua destruição interior, que só percebemos quando ela entra na garagem onde ainda guarda a caravana onde passara um verão com o seu amado. Só percebemos isso quando a vemos limpar o pó e as teias de aranha e o choro convulsivo. E aí compreendemos: ele morrera. À saída, um homem aguarda-a, ali parado à porta da garagem: apresenta-se como pai do Geoffrey. Ela não quer acreditar! Ele está vivo! Vivo!

O soldado americano: já em Canterbury encontra num café, por mero acaso, um colega também de licença, que traz consigo várias cartas da namorada, que andavam perdidas por outras paragens. Vemos o seu rosto iluminar-se, o brilho da esperança no seu olhar.

O inglês: é na própria Catedral onde entra, extasiado, e se aproxima do órgão, também ele magnífico, que o organista o convida, ou antes, desafia, a tocar. O seu sonho realiza-se.

 

 

 

 

Informações interessantes: Como leio na Folha da Cinemateca do Ciclo Os Tesouros de Londres, 25 de Julho de 1996, escrita por Manuel Cintra Ferreira: ... O ponto de partida de 'A Canterbury Tale', ainda segundo o realizador, seria mostrar aos americanos o que era a Inglaterra. 'Onde e com quem iam combater'. E, simultaneamente, explicar aos ingleses quem eram os americanos. Era o tempo em que as forças americanas se acumulavam nas Ilhas Britânicas preparando-se para o Dia D. ...

George Livesey e Deborah Kerr foram convidados para os papéis de, respectivamente, o tradicionalista Thomas Colppeper e da jovem que procura esquecer um desgosto de amor. (A meu ver, foi melhor assim, com actores praticamente desconhecidos. A identificação é facilitada. E, se noutra perspectiva, estas personagens são colectivas, simbolizando a América que vai conhecer a Inglaterra, cenário onde os seus soldados vão combater na 2ª Guerra Mundial, melhor ainda).

 

 

Leitura relacionada (pelo menos para mim): Há um livrinho delicioso de José Gomes Ferreira, Aventuras de João Sem Medo, que utiliza a metáfora e o fantástico para nos falar de ideias, de personagens e de caminhadas, e também muito cinematográfico.

José Gomes Ferreira também aqui nos conduz num outro Caminho de Descobertas.

Há muitas formas de contar uma história e de desenvolver uma ideia.

Ficamos a conhecer um pouco melhor o pensar e sentir português para melhor compreender a nossa própria caminhada.

 

 

 

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publicado às 15:20

Impérios fictícios

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.05.09

 

O Último Imperador: as cores quentes e sensuais de Bertolucci e os sons compassados e arranhados de Sakamoto!
Bertolucci capta a atmosfera irreal, alucinada, demente, de uma China muito muito velha. Como o consegue… não consigo descortinar.
Talvez ele próprio traga consigo, na sua alma romana, operática, uma história de excessos… E por isso entenda, como poucos, esse mundo de ficção, de impérios desligados da realidade.

Mas o que mais me marcou, para sempre, foi aquela sensação de desamparo. As sucessivas perdas de um jovem naquela expressão aflita: Não compreendo…
Não compreenderá nada ao longo do seu percurso. Naquela cidade imperial, prisão num mundo mais vasto, a lógica da violência e da estupidez humanas.
Não compreenderá a última ilusão: a Manchúria. O papel dos japoneses e a sua lógica de domínio e morte.
E tudo o levará à maior tragédia: a doença e a loucura da mulher, a prisão, a humilhação, o abandono, o esquecimento…


Cena impressionante, a da Revolução Cultural, a humilhação pública dos intelectuais. A loucura que nasce da loucura, que se perpetua na loucura e na ficção…
E magnífico encontro, já no final, do velho jardineiro, outrora imperador de um império fictício, e do miúdo, filho do guarda da Cidade Proibida.

 

 

 

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publicado às 20:48

 

Forrest Gump. Ultrapassar as limitações que a vida lhe trouxe. Aproveitar todas as oportunidades que lhe surgem. Enfrentar cada situação em que está metido, mesmo a mais adversa possível como a guerra do Vietname, pelo melhor ângulo: a lealdade, acima de tudo. Amar sem questionar nada, só por amar.

É inspirador, no mínimo.

É certo que o nosso herói tem uma mãe fora do comum. (1) Mas também é certo que ele já vem com essa marca registada, uma energia muito sua, que se orienta e depois se mantém nessa direcção. A sua bússula interior.

Foi assim com o primeiro e único amor. Que irá salvar a todo o lado, a todo o custo, mesmo contra a vontade dela!

Não há pedras suficientes, dirá ao vê-la um dia, desesperada, atirar pedras à casa agora vazia.

Foi assim com o amigo e companheiro no treino militar e depois no Vietname. Perderá o amigo naquela selva, mas trará outro às costas, mesmo contra a vontade do próprio! E como combinara com o amigo morto, irá dedicar-se à pesca do camarão.

 

O sucesso de Forrest Gump não é um puro acaso, como somos levados a pensar. O sucesso de Forrest Gump também não está na sua fortuna, surpreendentemente adquirida na pesca do camarão. O sucesso de Forrest Gump é ele mesmo! Uma raridade, em si mesmo. Uma inspiração.

Alguém à partida tão pouco talhado para a adaptação a um mundo áspero e competitivo, conseguir a autonomia e a vida familiar que Forrest construiu... Alguém que coloca o amor, a amizade, a lealdade, acima de tudo, conseguir conviver tão bem com um mundo cínico e desleal...

Zemeckis mostra aqui essa possibilidade.

 

Este é, para mim, o papel de Tom Hanks. (2)

A banda sonora, magnífica!

E os efeitos especiais, que incluíram sobreposições engenhosas com Forrest a inter-agir com personagens dos anos 60!

 

A parte mais hilariante: o pormenor da corrida de Forrest pelas estradas desertas, já seguido por uma multidão. Neste caso Forrest corre para apaziguar um desgosto. Um dia pára de repente, em plena estrada, deixando todos os que o seguem desorientados e confusos. É que a bússula tem de ser interior. Terão de a descobrir por si próprios.

 

É muito interessante a perspectiva do filme que fala da realidade de uma forma absolutamente original. É como se a perspectiva fosse mesmo essa: de que nos serve falar dos nossos abismos e desertos? O que interessa é a escalada e a travessia! Ultrapassar os condicionalismos, os obstáculos, os nossos medos, as nossas contradições. E a natureza humana, nisso, é exímia! Em situações-limite é capaz de se surpreender a si própria!

Também pode ser lido de um outro ângulo: as nossas vidas, por mais insípidas que sejam, já têm em si mesmas todos os ingredientes necessários, imensos mistérios por desvendar, abismos por escalar, desertos por atravessar.

Forrest Gump também nos mostra que a natureza humana procura, instintivamente, a sua sobrevivência, salvar a pele. É para escapar à violência de matulões agressivos que Forrest começa a correr. A partir daí, ninguém mais o pára. Corre no campo de futebol. Corre em plena selva no Vietname. E corre estrada fora.

É também esta ideia essencial da acção: perante uma situação, age, segue o seu instinto. Também é engraçado pensar que foram as adversidades que lhe deram o primeiro empurrão.

 

 

 

(1)  O olhar da mãe que o aceita tal como é, que vê as suas qualidades e potencialidades, que não o reduz e limita. A mãe é a primeira a instilar nele a ideia das possibilidades. Perante uma situação, o que se pode fazer?

(2)  E também o papel de Gary Sinise.

 

 

 

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publicado às 17:23

A arte apanha-nos sempre desprevenidos

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 11.08.08

 

Como contei no último post, vi The Red Badge of Courage pela primeira vez, dia 5, no canal TCM. Pensamos (erradamente) que depois da idade impressionável poucas coisas nos vêm surpreender. Puro engano. A arte - e a arte em Cinema - apanha-nos sempre desprevenidos.

 

The Red Badge of Courage mostra-nos a guerra (neste caso a Guerra Civil Americana) através do olhar de um jovem soldado. O terrível processo de encolher a alma inquieta e febril de um rapaz e levá-lo à maior angústia, a do medo. E à fuga, em plena batalha.

Claro que ninguém no meio da confusão, dos estrondos e do fumo, deu por isso!? Muitos terão tentado o mesmo, como lhe dirá o amigo mais próximo. Mas até ter descoberto isso, e que tinha sido dado como morto na altura, o rapaz terá de sofrer a vergonha dessa reacção instintiva (e humana) de salvar a pele.

E é quando vê passar os soldados feridos, pelo caminho poeirento, que desejará, ele também, ter uma marca qualquer no corpo, uma marca que sirva de prova de coragem.  Ainda terá a sua marca, não de uma bala ou estilhaço, mas de uma forte pancada na cabeça. De qualquer modo é uma marca, que irá mostrar, envergonhado, ao seu amigo, como fazem os rapazinhos com as mazelas visíveis das suas aventuras. E na batalha seguinte, como qualquer adolescente que desafia a morte, avançará intrépido no terreno, a disparar, e pegará na bandeira caída em pleno campo.

 

Só alguém com uma inteligência e sensibilidade filosófica fora do comum, eu diria mesmo, fora deste mundo, conseguiria, como John Huston aqui consegue:

- mostrar-nos todo o horror da guerra, a sua estupidez e insanidade, a sua lógica contra o indivíduo e contra tudo o que está vivo. O encontro final, já no final da batalha, entre os soldados do Norte e do Sul, é insuportavelmente comovente. A guerra não é sua. É uma lógica que os transcende;

- mostrar o contraste brutal vida-morte, ordem - caos, claridade - escuridão, num pequeno pormenor: o som de um simples pássaro e o sol através da folhagem;

- traduzir para linguagem do cinema - planos, movimento, sequências -, o percurso dos soldados, as suas dúvidas e angústias. E as cenas de batalha... A fotografia aqui é de tirar o fôlego. E o ritmo é perfeito. Assim como a banda sonora, magnífica.

 

A preto e branco fica tudo mais intenso, porque é a linguagem mais próxima dos sonhos (e dos pesadelos). Retive num recanto do meu cérebro esta imagem e esta frase: no regresso da batalha, que eles julgavam a última, um rebelde apoia um ianque ferido. Alguém disse: It was all a mistake.

 

 

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publicado às 16:33

Sobreviver ao maior desamparo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.04.08

 

Ballard e Spielberg = um filme mágico: O Império do Sol.

Ligam muito bem. É que Ballard entende a nossa época. E além de a entender, consegue traduzi-la para uma língua viva. E Spielberg entende Ballard e traduz essa língua viva, já em si tão sugestiva e visual, para planos e atmosferas que só ele consegue criar.

E quem, como eles, consegue falar dos dramas humanos mais horríveis com aquela frescura e clareza? Já o disse, há uma capacidade de ver a realidade, o olhar de um rapazinho. O adulto perdeu esta capacidade. De se extasiar. De abrir muito os olhos, de ficar de boca aberta. E de interrogar tudo, de tudo questionar.

J. G. Ballard ficou conhecido a nível mundial com este livro autobiográfico. Haverá outros. E todos a revelar a nossa época, para além das aparências, da ilusão. Em todos os seus livros há esta verdade para lá da superfície que só as crianças conseguem ver. O mais belo e o mais horrível. Só as crianças conseguem ver com olhos de ver a violência humana, a estupidez humana. A sua perversidade também.

Cenas dramáticas e poéticas:

O fascínio do miúdo pelos aviões: a sua presença sombreada no teto do quarto, as miniaturas na mão, às voltas na bicicleta, no jardim da casa.

A festa de máscaras, o avião abandonado, o grupo numeroso e ameaçador de soldados japoneses.

A casa deserta, a piscina vazia, a comida enlatada, a espera inútil pelos pais, as ruas desertas percorridas de bicicleta.

A fome, a sobrevivência no campo de prisioneiros, a luta por uma batata. As caminhadas dolorosas, a fome, a doença, a exaustão. E Jim sempre a tornar-se útil, sempre incansável.

A caminhada até esse estádio a céu aberto, no meio do nada, com objectos retirados das casas, carros misturados com mobília. Essa noite da morte da mulher, do casal que o acompanha desde o campo de prisioneiros. E a luz, o clarão no céu dessa bomba atómica que ilumina fantasmas…

O jovem aviador japonês que fica em terra porque o avião não pega, e com quem Jim descobre uma estranha cumplicidade… e que tentará desesperadamente salvar quando é atingido por engano.

A histeria no telhado do hospital, ao identificar os seus aviões bem conhecidos e amados. E o médico a obrigá-lo a declinar verbos em latim, para o acalmar.

O reencontro com os pais.

Jim é um rapazinho que quer salvar toda a gente. E que ficará com esta marca vitalícia: nunca mais poderá ver o mundo pelo olhar distraído do adulto.

 

Obs.: E daqui, de um outro lugar, a Xangai imutável e nostálgica que vemos no filme, na cena em que Jim se perde dos pais no meio da multidão.

 

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publicado às 12:53

As Neves de Kilimanjaro

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.12.07

 

O homem espera ansioso e febril. Uma ferida estupidamente infectada. A mulher não se conforma com o desfecho iminente. África como ponto de viragem na vida daqueles dois.

No meio da febre, memórias poéticas e trágicas. A juventude vivida intensamente, sem medir consequências. Passagem pela mítica Espanha, sonhos de heroísmo, mortes sem sentido. E amores antigos ainda vivos. Estranhamente ainda vivos.

Os homens e a sua necessidade de medir forças com o mundo e consigo próprios, como se estivessem sempre inquietos, à procura de qualquer coisa. Sempre a arriscar a vida, no limite.

E é esta mulher, a que está agora ao seu lado, que o tenta proteger, de forma quase maternal. É esta mulher, que ele afasta de forma inconsciente, que luta agora com todas as suas capacidades, inteligência, determinação, para lhe salvar a vida.

Nesta luta a mulher ganha. A vida ganha. O homem acorda e não será apenas da infecção. Olha-a como se pela primeira vez. Hemingway também lutava consigo próprio à procura da ideia exacta, do texto exacto. O que escreve, como escreve, revela essa luta constante. Como uma tourada, vida e morte, sem tréguas.

 

 

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publicado às 16:22

The Best Years of Our Lives

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.11.07

Voltar a casa. Expectativas, ansiedade, receio. Perceber que muita coisa mudou. Perceber que se é preterido no aeroporto por um empresário rico, por exemplo. Perceber que o seu papel já não é valorizado, que já se passou para o fim da lista. O oportunismo natural das sociedades. Isto é universal, mas aqui é a América. Onde tudo parece andar mais depressa.

Voltando atrás. Ao aeroporto onde os nossos soldados esperam por uma vaga num avião que os leve de volta a casa. Têm postos militares e especialidades diferentes. O que não os impede de confraternizar como se já se conhecessem. Há uma cumplicidade imediata naquele trio. A consciência da sua humanidade e do que é essencial: os afectos, e integrar-se de novo na comunidade, num outro papel em que se sintam úteis.

O marinheiro ficou mutilado e usa próteses de forma hábil, fisicamente mantém a autonomia, mas receia que a namorada, ainda muito jovem, se impressione. O cabo, o mais velho, é casado, tem dois filhos, trabalha num banco e vive confortavelmente numa das avenidas modernas. O piloto, recém-casado, é o mais medalhado mas também o mais ferido na alma, mantém o pesadelo nocturno da morte de um companheiro.Foi por esta ordem que foram sendo entregues nas suas casas, nervosos, hesitantes, amedrontados.As guerras utilizam e trituram vidas de jovens. Depois, largam-nos sem qualquer sentido de responsabilidade. Sem qualquer respeito pelo que viveram e passaram. E estamos a falar dos que voltam…Estes voltaram. E dão-nos uma lição de humildade, dignidade e humanidade que é raro, raríssimo ver hoje em dia nas nossas comunidades modernas. Mostram-nos o que de essencial se está a perder. Todos eles encontram o seu lugar depois de sofrer decepções, depois de enfrentar a frieza e o cinismo. E todos eles encontram o afecto. E todos, de forma comovente.

 

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publicado às 15:16


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